quinta-feira, 1 de março de 2012

Tiro Certeiro


* A festa do Oscar foi morna. Não sei como estava no teatro Kodak, porque ainda não fui convidado, e até isso acontecer o teatro já terá outro nome – a Kodak está em processo de falência – mas do lado de cá da tela, achei a cerimônia morna, sim.

* Afora a canja da trupe do Cirque du Soleil, que foi incrível, o assunto mais comentado da noite foi a pose de Angelina Jolie. O casal Jolie-Pitt, aliás, jamais passa despercebido. Ele concorria à estatueta de melhor ator e desfilou no tapete vermelho vestindo o que um homem pode vestir de melhor: Angelina.

* Quem quis botar defeito, achou ela muito magra. Quem nao quis, reconheceu toda a sua majestade, até o momento da pose. Copiada repetidamente por todos. Pra quem não viu, foi no momento em que subiu ao palco pra apresentar um dos prêmios da noite. Colocou uma mão na cintura, quebrou um pouco o quadril e deixou a perna da frente escapar pela racha do vestido exageradamente.

* Mesmo sem concorrer a nada, Angelina foi o assunto. Não acredito que tenha sido sem querer. A mídia é o combustível dessa gente. O tiro foi certeiro!

Vou de Táxi


* Se você nasceu neste milênio e é capaz de ler essas linhas, tenho certeza que conhece Zac Efron, o astro da franquia High School Musical. No entanto, se você é do milênio passado, não há nada de errado em não conhecê-lo.

* Talvez eu ajude com uma referência mais adulta: é o garoto protagonista do filme Outra Vez 17. Não viu? Veja. A história é boba, mas o texto é sensacional. Além do mais, ter 17 novamente está sendo ótimo. Pelo menos pra mim, que acabei de entrar na faculdade.

* Voltando ao Zac: esteve essa semana no Brasil pra participar da inauguração da John John Denim no shopping Higienópolis, em São Paulo.

* O ator saiu de Hollywood especialmente pra marcar presença na inauguração de uma loja. Pense no empenho e nas cifras que gravitam em torno do evento. Agora pense que, chegando aqui, o moleque não compareceu. Motivo: muita gente e pouca segurança. Mico internacional.

* Pra não dizer que as horas de voo foram em vão, Zac participou da gravação do quadro “Vou de Táxi”, no programa do Luciano Huck.

O Artista


* Imagine que o céu esteja completamente fechado e ainda assim você tem o palpite de que não vai cair um toró. Era assim que eu me sentia diante das previsões para o Oscar que aconteceu no domingo.

* Apesar de todos os dedos dos especialistas no assunto apontando para O Artista, meu coração estava com Hugo Cabret naquela disputa e foi ele – meu coração! – que coloquei na mesa de aposta. Pior: perdi!

* Dos nove filmes que concorriam ao prêmio principal na noite de domingo eu havia assistido seis, inclusive o vencedor, donde eu me sinto confortável pra me chatear com o resultado. O Artista é um belo filme, mas Hugo é um filme digno de todos os prêmios.

* Eu considero o cinema-mudo, enquanto gênero, uma espécie de máquina de escrever. Ela pode ser linda, exalar poesia e te transportar para o cruzamento mais movimentado da tua nostalgia. Mas ainda assim é uma obsoleta máquina de escrever. Não tem mais cabimento.

* Nesses termos, eu teria aplaudido O Artista se ele conseguisse realmente comunicar toda a sua idéia sem lançar mão das palavras, como um mímico que se expressa somente com o seu corpo. Mas não foi o caso. Quando as palavras se faziam necessárias, elas vinham escritas na tela – tal e qual antigamente.

* A diferença é que antes não existia o cinema falado e escrever era o único jeito de dizer. Hoje não tem mais cabimento. Escrevendo na tela, até o cachorrinho pode falar – e olha que no assunto expressão corporal o cachorrinho está em pé de igualdade com o resto do elenco.

* Não quero ser injusto: o filme tem seus momentos líricos e me emocionei, sim. A cena em que ela interage com o casaco dele é uma delícia, apesar de não ser original. Quando ele começa a ouvir também é genial, assim como o “acidente” da penúltima cena. Mas é um filme que me fez olhar no relógio mais de uma vez – e isso é um sintoma clássico de que dura mais tempo do que deveria.

* Sei que os eruditos irão criticar minha falta de sensibilidade e os fãs dos blockbusters não virão ao meu socorro, porque nem saberão do que se trata. É uma opinião solitária até o momento. Mas preciso ser sincero. Comigo mesmo.

Resultado

* Nos últimos cinco anos, houve duas ocasiões em que eu fiquei mais desapontado do agora com o detentor da estatueta dourada mais cobiçada do cinema.

* Em 2008, os irmãos Cohen derrotaram o meu favorito Desejo e Reparação com aquela porcaria que chamaram de Onde os Fracos Não Têm Vez – um filme que nem precisaria existir.

* Em 2010 também deu zebra. Guerra ao Terror não poderia nunca ganhar de Avatar. Mas ganhou. O que me consola este ano é que O Artista não é um filme terrível como os outros dois.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Cabaret


* Eu já falei do assunto na ocasião da estreia, mas gostaria de retomá-lo agora, depois de assistir. Meu primeiro contato com o musical Cabaret aconteceu em 2003, quando eu estava em Nova York e um dos cartazes da Broadway anunciava um revival do musical no lendário Studio 54.

* Naquela ocasião eu assisti a peça com o cantor cubano Jon Secada no papel de Emcee [MC – mestre de cerimônias, para ajudar os desavisados] dirigido por Sam Mendes, que estava no topo da cadeia alimentar após ganhar o Oscar de melhor diretor e melhor filme, em 2000, com Beleza Americana – seu filme de estreia.

* Agora, a montagem da peça em São Paulo, com Claudia Raia no papel de Sally Bowles, uma prostituta inglesa, atração de um cabaré decadente de Berlim durante o apogeu do nazismo, está imperdível.

* A personagem cai como uma luva nas mãos da atriz, que já fez este gênero em Sweet Charity, só pra ilustrar. Cláudia é uma das precursoras e uma grande entusiasta do gênero musical no Brasil. Assisti-la é sempre uma aula e, apesar de não ser uma grande cantora e patinar nas notas mais agudas, a sua performance é sempre impressionante.

* Quem também arrebenta é Jarbas Homem de Mello, no papel do mestre de cerimônias. A direção é de José Possi, a versão brasileira de Miguel Falabella e há rumores de que a montagem siga em cartaz até julho, migrando para o Rio em seguida.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Hugo


* A Invenção de Hugo Cabret é a primeira aventura do diretor Martin Scorsese no universo tridimensional, e não poderia ter começado melhor. O filme usa a história do órfão Hugo – um novo Oliver Twist que vive na Paris dos anos trinta – pra contar a própria história do cinema.

* A metalinguagem vai além: usa a tecnologia 3D pra mostrar que já se fazia isso na invenção do cinema, quando os irmãos Lumière apareceram com o primeiro cinematógrafo.

* Do ponto de vista técnico, é um filme impecável. Passear por Paris na terceira dimensão, reconhecendo seus edifícios e suas avenidas é uma delícia. Logo no início, o diretor tem uma sacada genial que é lançar um olhar sobre a avenida circular que corre em torno do Arco do Triunfo e fundi-la com o centro de uma grande engrenagem – elemento que dá o pontapé inicial pra contar a história de Hugo.

* Hugo vive clandestinamente na Gare du Nord, onde dá corda nos relógios, cujas torres lhe oferecem visões panorâmicas da cidade e do seu entorno. Seu pai [uma participação afetiva de Jude Law] lhe deixa um único legado: um autômato – um boneco movido à corda que precisa de reparos pra poder funcionar.

* Nessa missão, ele se envolve com uma das figuras mais emblemáticas da história da sétima arte, o diretor Georges Méliès, um ilusionista que apostou suas fichas num estúdio, dirigiu e protagonizou centenas de produções e acabou caindo no esquecimento com as grandes mudanças trazidas pela Primeira Guerra.

* Os mais céticos irão achar o filme bobo. No entanto, os que tiverem olhos para apreciar seu lirismo, sua poesia, terão uma obra-prima diante de si. A direção de arte é primorosa, assim como a trilha sonora, com valsas tristes no acordeom. Ao final, minha vontade era levantar e aplaudir.

* Pra mim, foi o grande injustiçado da noite de ontem na festa do Oscar, ganhando apenas prêmios técnicos.

Dúvida

* O título do filme em português retoma o original do livro que inspirou o filme. The Invention of Hugo Cabret é um romance juvenil do escritor norte-americano Brian Selznick.

* Antes de assistir ao filme, achei que Hugo Cabret era o produto da invenção. Em nenhum momento passou pela minha cabeça que Hugo Cabret pudesse ser o inventor – o que é completamente razoável.

* Depois de ver o filme, fiquei em dúvida. Não achei que Hugo Cabret fosse inventor nem invenção, exceto pela parte ficcional da trama. Talvez nem o próprio Martin Scorsese tenha chegado a alguma conclusão, optando por chamar seu filme simplesmente de Hugo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Lady Thatcher


* Margaret Thatcher foi a primeira-ministra inglesa entre 1979 e 1990 – exatamente o período da minha infância, quando a gente aprende algumas capitais e presidentes importantes, donde dá pra saber que este nome estava presente nos meus primeiros anos.

* Seu apelido Dama de Ferro é creditado aos soviéticos, mas pode ter um bocado de inspirações: Thatcher sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1984, foi rígida na oposição aos sindicatos e inflexível feito ferro nas críticas à União Soviética.

* Seu nome volta às bocas com o filme A Dama de Ferro, sobre sua vida, protagonizado por Meryl Streep numa atuação gloriosa – forte candidata ao Oscar de melhor atriz, e aqui aproveito pra confessar o quanto eu gostaria que essa estatueta fosse dela.

Sem Final

* Eu costumo criticar biografias de pessoas vivas, afinal de contas, o grande desfecho da vida é a morte e sempre que se escreve um livro ou se faz um filme sobre a história de alguém vivo, tenho a sensação de que faltou o final.

* No caso de Margaret Tatcher a causa-mortis não terá relevância: ela já está bastante idosa e sofre de demência. É provável que ela nem tome consciência do filme sobre sua vida.

* Sua história foi bem contada, desde a infância quando era a filha do quitandeiro passando pela bolsa que ganhou pra estudar em Oxford, a paixão por Dennis e o casamento de papéis invertidos – ela era o homem da relação, o engajamento com a política, sua ascensão e seu declínio até culminar na solidão da velhice.

Melhor Atriz

* Na saída da sessão d´A Dama de Ferro, tudo o que eu conseguia pensar era na habilidade de Meryl Streep em se entregar se corpo e alma às suas personagens, a ponto de eu esquecer que era Meryl Streep quem estava ali.

* Há pouco eu confessei minha torcida por ela neste Oscar que acontece depois do carnaval, no domingo [26]. Meryl Streep é, disparado, o nome mais assíduo nas listas de indicados ao Oscar de Melhor Atriz.

* Este ano, ela recebeu sua 17ª indicação, sendo três vezes na categoria de atriz coadjuvante e todas as demais em um papel principal.

* O mais justo seria que a Academia fizesse com ela o que acabou de ser feito no Festival de Berlim: homenagear pelo conjunto da obra – que já é incrível, e vou orar pra que ela tenha vida longa e possa me emocionar ainda muitas vezes.

Pranto


* A notícia correu ligeiro na noite de sábado: Whitney Houston foi encontrada morta na banheira de um hotel em Beverly Hills, onde estava para a cerimônia do Grammy – que aconteceu ontem em Los Angeles.

* A propósito de celebridades, tenho reparado uma particularidade na flexão do verbo. Ao invés de morrerem, são encontrados mortos. É claro que a morte é, por uma regra natural, uma atividade solitária – o derradeiro ofício dos seres pulsantes. Mas o fato de ser encontrado morto normalmente traz a mesma causa-mortis por detrás.

* A relação de Whitney com o álcool e as drogas era antiga. Durante seu tumultuado casamento com o rapper Bobby Brown, era comum ler manchetes nos tablóides sobre barracos – provavelmente regados a vodka e cocaína.

* A polícia divulgou que não encontrou drogas no quarto do hotel. Apenas cápsulas e remédios. Whitney também conversou por telefone com a mãe e com a prima Dionne Warwick algumas horas antes e nenhuma delas notou algum comportamento suspeito.

* Na semana passada, ainda comentei aqui que sua canção I Will Always Love You havia sido eleita uma daquelas canções que fazem a gente chorar. Whitney Houston calou-se para sempre. Sua voz, no entanto, ainda vai embalar o nosso pranto.

Tributo

* A noite do Grammy também foi de tributo a Whitney Houston. A eleita pra cantar I Will Always Love You – tema do filme O Guarda Costas e seu maior sucesso – na festa foi Jennifer Hudson.

* Diante de tantos elogios nas redes sociais, fico com um pouco de vergonha de dizer que não gostei, mas preciso ser fiel a mim mesmo e dizer: não gostei. E posso argumentar. Já nas primeiras frases, ela fez uma coisa que eu acho pavorosa: respirar no meio de uma palavra.

* Revejam o vídeo e reparem na palavra “only”, já no segundo verso. O calor da emoção aceita embargos na voz, tremores e até uma derrapada na afinação, mas não tolera respiração no meio de palavra. Nem que fosse supercalifragilisticexpialidocious.

* E depois ela encheu tudo com tantos ieiês que ficou parecendo música gospel. Se fosse eu a dirigir, teria colocado Beyoncé pra este solo.