domingo, 23 de fevereiro de 2014

Jesse Owens


* Eu baixei um aplicativo no meu telefone chamado History Quiz. É um jogo onde aparecem quatro imagens fazendo referências a um personagem ilustre da História e você precisa adivinhar quem é.

* Passei semanas encalhado nas imagens de um corredor, pareciam fotos antigas, o sujeito era negro mas não tinha uma única pista sobre a nacionalidade dele, nem a época, nem nada.

* De repente, sentado no cinema com a menina que roubava livros na minha frente, a resposta cai no meu colo: Jesse Owens. O atleta e líder civil norte-americano ganhou quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de Berlim em 1936 e aparece como ídolo do personagem Rudy, que no filme é um grande corredor e pinta o rosto de preto pra ser tão rápido quanto Owens.


* Reza a lenda que Hitler teria se ausentado do estádio diante da vitória de um negro para não ter que cumprimentá-lo.

Dura


* Fabio Porchat recebeu ameaças anônimas de alguém que vestiu a carapuça – provavelmente um policial corrupto ou um par deles – por conta do vídeo Dura, publicado há duas semanas no Porta dos Fundos. Desde o especial de Natal que uma esquete do grupo não repercutia tanto: mais de 5,5 milhões de acessos até hoje.


* O pai do humorista, ex-deputado, pediu ajuda ao amigo senador Álvaro Dias [Paraná] para que aquela casa intervenha na investigação do caso. É aquela velha história: você manda o recado pra uma puta, o Bataclan inteiro se ofende.

Álbum de Família


* A história que eu conheci e que vou gostar de contar é que Julia Roberts foi a um dos teatros da Broadway assistir à peça August Osage County, um drama familiar do dramaturgo Tracy Letts, e enlouqueceu com o que viu. Na mesma hora, transformou aquilo num projeto pessoal e decidiu que viveria a personagem Barbara.

* Melhor que realizar um desejo é realizar dois desejos: Julia Roberts iria contracenar com sua atriz favorita, Meryl Streep, que aceitou o papel da matriarca Violet. O resultado, realização de um sonho, termina no tapete vermelho do Oscar, com Julia indicada ao prêmio de melhor atriz coadjuvante e Meryl ao de melhor atriz principal.


* A primeira já faturou o prêmio na categoria principal quando interpretou Erin Brockovich há uma dúzia de anos. A segunda é a rainha das indicações, candidata honorária jubilada da Academia. Ganhou apenas três vezes e ainda assim ninguém ganhou mais que ela, a última delas como Margaret Thatcher, a Dama de Ferro.

Clube de Compras Dallas


* Apesar da tradução do título ser quase literal – o original fala em compradores – eu não tinha a menor ideia do que se tratava o Clube de Compras Dallas, mas algo me remetia aos delírios de consumo de Becky Bloom. Só que não.

* O clube de compras em questão é um assunto muitíssimo mais delicado: o contrabando de drogas não aprovadas pela FDA [uma espécie de Anvisa americana?] quando o fantasma da Aids começou a assombrar os portadores do vírus HIV, nos anos oitenta.

* A história começa em Dallas, 1985, quando o personagem de Matthew McConauguey – um típico cowboy racista e homofóbico – descobre que está morrendo de Aids. O médico lhe dá a sentença: fazer com que todos os seus projetos caibam em trinta dias.

* Passada a fase da negação, ele começa uma batalha pela vida em busca de drogas que lhe ofereçam alguns dias a mais e associa-se com um travesti, personagem de Jared Leto [vocalista da banda 30 Seconds to Mars].

* Os dois estão impecáveis em suas atuações, com direito a emagrecer dezenas de quilos pra composição dos personagens, que lhes renderam sua primeira indicação ao Oscar, de ator principal e ator coadjuvante, respectivamente.

* Em um dos diálogos entre eles, o cowboy jura para o travesti que “Deus estava vestindo a boneca errada quando lhe abençoou com um par de bolas”. A propósito, o roteiro também é candidato à estatueta dourada, assim como a edição e a maquiagem. Também concorre na cobiçada categoria de Melhor Filme. Tudo isso com orçamento diminuto – pouco mais de 5 milhões de dólares.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A Menina que Roubava Livros



* Eu não havia lido o livro, o que costuma aumentar o entusiasmo na hora de ir ao cinema. Ler antes costuma resultar em uma expectativa que nunca se cumpre, como foi o caso d’O Caçador de Pipas, cujo livro tem hoje suas páginas regadas de lágrimas e um filme bem menos comovente.

* Assim, sem nem tomar conhecimento sobre o assunto, mergulhei de cabeça na história d’A Menina que Roubava Livros e quase me tornei o menino que roubava lenços. Aliás, quase todos os filmes sobre o nazismo têm esse poder de remexer nossas entranhas, pelo próprio horror que nos faz compadecer o sofrimento alheio.

* Quando se faz isso com poesia, então, é um convite às lágrimas. É como pegar o filme Meu Primeiro Amor [com o Macaulay Culkin, lembram?] que já é tristíssimo e adicionar os horrores da guerra, da perseguição, dos bombardeios e de ir ao encontro da morte.

* A atriz que interpreta Liesel, a menina que rouba os livros do título, é a canadense Sophie Nélisse e seu par, Rudy, é interpretado por Nico Liersch – ambos desconhecidos até então, crianças do século vinte e um, mas incríveis. Especialmente juntos. Espero poder voltar a escrever seus nomes muitas vezes. Pra engrossar o elenco, temos Geoffrey Rush e Emily Watson como o casal que adota a menina.

* A história é narrada pela morte, em primeira pessoa. Começa trazendo à superfície a certeza de que, cedo ou tarde, todos temos um encontro com ela. Todos deslizaremos por seus braços. Ao fim, ela devolve o medo com o qual a enxergamos dizendo que ela, a morte, se assombra conosco.

* Pra não dizer que o filme ficou completamente fora do Oscar, está concorrendo na categoria de melhor trilha sonora. No entanto, tem potencial pra muito mais que isso.

Capitão Phillips


* Se eu tivesse que responder qual foi a maior lacuna entre as indicações ao Oscar deste ano, diria rapidamente que foi Tom Hanks, por seu Capitão Phillips, que entregou-se de corpo e alma ao seu personagem e emociona no desfecho da trama.

* Porém, eu não saberia dizer quem deveria ficar fora pra ele entrar, já que esta categoria conta apenas com cinco poltronas do teatro Dolby [antigo Kodak], onde o prêmio será entregue na noite de 02 de março, em pleno domingo de carnaval.

* Capitão Phillips narra a epopeia de um navio cargueiro que viajava pelo Chifre da África quando sua embarcação foi sequestrada por piratas somalianos, fazendo seu comandante de refém. O fato foi narrado pelo próprio capitão Phillips no livro que deu origem ao filme. A propósito, uma das seis indicações que o filme recebeu ao Oscar foi na categoria de Melhor Roteiro Adaptado.

* As outras indicações foram nas categorias de edição, edição de som, mixagem de som, melhor filme e melhor ator coadjuvante para o impronunciável Barkhad Abdi, o ator somaliano que faz o papel de um dos piratas sequestradores.

* A direção é de Paul Greengrass, habilidoso em criar uma atmosfera de tensão como nos dois últimos filmes da trilogia Bourne, onde substituiu Doug Liman, e em seu Vôo United 93, que lhe rendeu uma indicação à estatueta dourada que ainda não consta na sua estante de conquistas.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Trapaça


* O cineasta nova-iorquino David O. Russell era um ilustre desconhecido do grande público há pouco tempo. Até que em 2010 ele filmou O Vencedor e de repente viu seu trabalho indicado a sete Oscar [levou melhor ator coadjuvante para Christian Bale e melhor atriz coadjuvante para Melissa Leo], uma façanha e tanto pra quem acaba de surgir na Academia.

* Só que ele foi mais longe. No ano passado, seu filme O Lado Bom da Vida foi o campeão de indicações à estatueta dourada. Foram oito, que na noite do Oscar acabaram em uma única vitória para Jennifer Lawrence, com direito a um histórico tropeço na escada do teatro.

* Emendando um projeto no outro, seu novo filme Trapaça rendeu mais um feito heroico: outra liderança na lista de indicados ao Oscar, empatado com Gravidade, do mexicano Alfonso Cuarón. Os dois filmes concorrem em dez categorias.

* Desde os anos noventa, quando comecei a acompanhar o Oscar, não lembro de um diretor que tenha tido esta proeza. Três filmes em quatro anos com um total de 25 indicações. A maioria delas nas categorias artísticas, o que deve significar que o cara é incrível dirigindo atores.

* Contudo, devo dizer que apenas gostei dos seus filmes. Não adorei nenhum deles e sigo achando que David O. Russell ainda está buscando sua identidade no cinema. Sua obra não tem assinatura, falta aquela impressão digital nos faça detectar a presença do diretor sem precisar ler seu nome.

* Trapaça é um filme sobre um par de picaretas que aceita trabalhar para um agente do FBI como uma espécie de troca, para não serem presos. O objetivo da missão é chegar no inacessível chefe da máfia, que é interpretado por Robert de Niro em uma participação afetiva, sem créditos.

* No afã de guardar uma boa surpresa para o final, o filme acaba confundindo um pouco o espectador, e é este o seu principal pecado. Os quase 150 minutos de projeção guardam algumas cenas memoráveis, mas também uma dose de tédio.


* No entanto, a trilha sonora fica acima de qualquer suspeita – linda! – o que sempre dá uma alternativa pra quem não estiver curtindo o filme: assistir de olhos fechados.