domingo, 22 de julho de 2012

Via Crucis

* Depois de cumprir a longa jornada do musical Trinta Moedas, o signatário dessas linhas – dado a dirigir musicais e a falar de si na terceira pessoa – foi checar o que está acontecendo nos palcos da capital paulistana e compartilha com os leitores para que, de passagem por Sampa, possam se programar. A via crucis inlcuiu três musicais importados, mas com elenco 100% tupiniquim: Priscilla – A Rainha do Deserto, que estreou em Sydnei e depois de passar por Londres e NY desembarcou no Brasil; Fame – O Musical, que também já recebeu montagens em diversos países e línguas e, por fim, A Família Addams que está em cartaz no teatro Abril, onde giram as cifras mais polpudas da indústria do entretenimento.

Priscilla – A Rainha do Deserto


* O musical Priscilla é baseado no filme australiano homônimo que se transformou num blockbuster contando a aventura de três drag queens que cruzam o deserto da Austrália a bordo de um ônibus [carinhosamente batizado de Priscilla].

* Priscilla ganha o público por dois motivos principais: primeiro pelo visual, já que conta com mais de 500 figurinos, 200 perucas e 23 toneladas de cenário, inclusive um ônibus com 30 mil pontos de LED – e tudo muito colorido, tudo muito drag queen.

* O segundo motivo é a trilha sonora, recheada de grandes hinos da música disco. E pra melhorar, as músicas servem mais para ilustrar do que pra desenvolver a história, de forma que a maioria das cancões ficou com a letra original – em inglês – sem comprometer a história.

* A história, aliás, é repleta de humor e boas piadas. Leve, com apenas dois momentos mais dramáticos: o encontro com a rejeição diante do ônibus pichado e o encontro com o filho na última parte da peça.

* O repertório foi um pouco alterado na montagem nacional. Não entendi o motivo. A canção I’ve Never Been to Me, que faz parte da trilha do filme e do musical, ficou de fora. Quando pesquisei sobre a música, descobri que era de uma cantora californiana chamada Charlene, dessas que faz um único sucesso na vida e desaparece para a eternidade.

* Outra que ficou de fora foi Both Sides Now, da canadense Joni Mitchell, mas lindamente substituída por True Colors, que muita gente dá o crédito pra Cindy Lauper, mas que é devido ao Phil Collins.

Fame – O Musical


* Eu tomei conhecimento da montagem nacional do musical Fame através de um vídeo que virou um meme na internet, onde a atriz Paloma Bernardi deixava claro que não tinha o menor jeito pra música.

* Quando assisti essa peça em Londres, há mais de dez anos, fiquei super comovido. As músicas eram lindas, o elenco muito bem escalado e a amarração bem feita. Resolvi que queria ver a versão brasileira de qualquer jeito, nem que fosse só pra constatar que era tão ruim quanto o vídeo da Paloma.

* É nessas horas de expectativa zero que estamos com o coração aberto para as melhores surpresas da vida. Adorei a montagem, assim como as versões das músicas e tive duas ótimas surpresas no elenco. Giulia Nadruz, que interpreta Serena, e Murilo Armacollo, no papel de Joe Vegas.

* Enquanto assistia a peça, achei o rosto dele familiar. Depois descobri que ele havia feito o filho do presidente na minissérie O Brado Retumbante, que aliás ele fez muito bem, mass ainda achei que o rapaz foi feito sob medida para o teatro musical.

A Família Addams


* Vão dizer que fui uma criança que não via Sessão da Tarde diante do que direi, mas prefiro ser honesto sobre o assunto: eu nunca assisti o filme d’A Família Addams. Passei minha vida ouvindo referências ao clã, especialmente à Morticia, sem saber do que se tratava.

* Talvez por isso, por não ter visto o filme, eu não me interessei por esta peça quando ela estreou há dois anos na Broadway. Nem Nathan Lane no papel de Gomez, nem Brooke Shields no papel de Morticia me carregaram para o teatro – a gente sempre tem que fazer escolhas quando há muito o que ver e poucas noites para tanto.

* No entanto, quando os luminosos do teatro Abril se acenderam com A Família Addams, não pude mais resistir. Até porque o teatro Abril é a meca do teatro musical no Brasil. Melhor do que estar sentado na sua plateia diante de suas produções milionárias, só se for estar sobre o palco.

* A química entre Marisa Orth e Daniel Boaventura está como uma enzima para o seu substrato. Os dois estão completos, plenos, cantando, dançando e fazendo graça. Ele, um veterano dos musicais, continua afetado na dicção desde o professor Higgins, mas sem comprometer a qualidade do seu personagem. Ela, com um decote que vai até a Patagônia e todas as formas no lugar, também caiu bem no papel.

* O número do tango é páreo para o Tango Roxanne, de Moulin Rouge, ou o Tango Maureen, de Rent. E a estética da peça é irretocável. Figurinos caprichadíssimos e efeitos visuais incríveis, como na cena em que o tio Fester se enamora com a lua – um dos highlights.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Tony Awards



* Neste domingo acontece a cerimônia mais importante da Broadway, o Tony Awards, que reúne as estrelas do teatro e premia o que acontece de melhor nos palcos de Nova York. Se fosse pra comparar com o cinema, chamaríamos de Oscar.

* Mas com uma diferença fundamental: enquanto o Oscar homenageia os filmes do ano anterior, o Tony gira em torno do que está em cartaz neste momento, com as peças e os musicais devidamente segmentados em categorias distintas.

* O prêmio mais importante – e o mais concorrido – da noite é o de “melhor musical” que tem quatro indicados: Leap of Faith, baseado no filme estreado por Steve Martin que em terras tupiniquins chamaram de Fé Demais Não Cheira Bem; Newsies, também adaptado de um filme dos anos noventa estrelado por Christian Bale; Once, este um pouco mais recente, mas também adaptado do cinema para os palcos e, por fim, Nice Work if You Can Get It.

Newsies

* Minha torcida vai pra este musical da Disney – eles já provaram ser tão bons na produção teatral quanto são nas animações – que eu já enchi de predicados aqui na coluna na época em que assisti, bem na semana da estreia.

* Aqui no Brasil, o título foi traduzido como Extra! Extra!, um fracasso de bilheteria, e conta a história real da greve dos jornaleiros em Nova York no fim do século dezenove.

* Desde O Despertar da Primavera que eu não assitia a um musical com tanto punch. A pegada é forte e a plateia nao economiza nos aplausos. Arranjos lindos e coreografias irretocáveis do celebrado Kenny Ortega, coreógrafo de sucessos como Dirty Dancing e High School Musical.

Once

* O musical Once é a adaptação para os palcos do filme Apenas Uma Vez, que não ganhou muita notoriedade do lado de baixo do Equador. É um filme irlandês sobre um cara que se envolve com uma imigrante e juntos eles compõem a trilha sonora da história de amor vivida por eles mesmos.

* Eu não sei se o termo “vanguardista” é adequado pra esta produção teatral, porque nada ali me pareceu uma ideia nova. Talvez o termo “alternativo” caia melhor, já que durante a entrada dos espectadores o elenco já está no palco fazendo um esquenta, o que exclui a gostosa sensação de abrir o pano.

* O cenário é fixo, com um grande balcão no fundo do palco que, durante o intervalo, se transforma no próprio bar onde a plateia sobe para tomar um shot.

* É um drama com pitadas irônicas. Uma história de amor covarde, onde o mocinho e a mocinha não são capazes de tirar os pés do chão pra dar o salto e viver sua história, com uma trilha sonora que me lembrou qualquer disco do Damien Rice.

* Me emocionei, mas não é o gênero que eu recomendaria a qualquer um.

Nice Work

* Nice Work if You Can Get It não recebeu sua indicação ao Tony por acaso: é um musical grandioso, com figurinos ricos, cenários maravilhosos, um sobe e desce que dá vertigem, músicas de Gershwin e um elenco encabeçado por Mathew Broderick – mais conhecido como o marido da Sara Jessica Parker.

* Ele é ótimo em musicais, já tinha provado o seu talento n’Os Produtores, inclusive na versão para o cinema, e tem ao seu lado uma estrela de primeira grandeza – Kelli o’Hara é linda, magra e dona de uma voz precisa que sabe onde quer chegar. Eu poderia assisti-la por toda a noite. Ela inclusive concorre na categoria de melhor atriz num papel principal de musical. Por mim, leva o Tony pra casa.

domingo, 3 de junho de 2012

Arrepio de Pancada


* O show de estreia de Marisa Monte em sua nova turnê – Verdade, Uma Ilusão – neste fim-de-semana no teatro Guaíra, em Curitiba, foi um acontecimento. Marisa, além de ser a melhor cantora do Brasil e inspirar tantas outras que se aventuram no ofício de cantar, é uma grande estrategista no trato de sua carreira.

* Ela é uma daquelas exceções que domina os dois lados do cérebro – o direito com sua sensibilidade e sua arte e o esquerdo com a administração dela.

* Pra dividir o palco, chamou o veterano Dadi [Os Novos Baianos, A Cor do Som] que trocou o contrabaixo pelo violão nessa excursão e o piano de Carlos Trilha, manezinho da ilha, responsável pelos dois álbuns-solo da carreira de Renato Russo.

* Pegou emprestado também três integrantes do Nação Zumbi pra fazer guitarra, baixo e bateria, com a promessa de devolvê-los ao final da turnê e ainda um quarteto de cordas que deu um ar mais erudito e mais arranjado para o repertório, misturando sucessos antigos com as canções do disco novo.

* Do disco Mais, lançado há vinte anos, Marisa trouxe de volta Eu Sei [Na Mira], Beija Eu e Diariamente, com direito a um tropeço na dificílima letra [esqueceu o verso Para Adidas, o Conga nacional] e um pedido de desculpa – que na voz dela também vira música, e não há como não perdoar.

* Fez também uma homenagem a Cassia Eller cantando a música ECT, com uma pegada bem flamenca. Depois disse o quanto admirava a cantora e da falta que ela faz como referência. Disse que sentir saudade não é sentir falta. “Sentir saudade é sentir presença”. E complementou tocando e cantando o choro De Mais Ninguém, do álbum Rosa e Carvão, uma das mais belas músicas de toda sua discografia.

* Homenageou também a cantora italiana Mina Mazzini com a canção Sono Come Tu me Vuoi e contou que estreitou os laços com ela durante uma temporada na Itália, e que convidou Mina pra cantar Ainda Bem no disco novo. Mina gostou tanto da música que gravou sozinha, em português mesmo, no seu disco.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

e-flyer


Flyer eletrônico que Claudia Bia desenvolveu pra divulgar o novo trabalho do grupo de arte Alina Lamparina. Não ficou lindo? Eu gostei demais. E um abraço todo especial aos parceiros deste musical - Havan, WJ Acessórios, RVB Malhas, Zendron Multimarcas, HJ Tinturaria, Lua Encantada, IVA Filmes e a Fundação Cultural de Brusque

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Barraco de Feira


* Bas fond nos bastidores da Feira do Livro de Bento Gonçalves, que a cidade gaúcha organiza para a primeira quinzena de maio. Tudo por conta do cachê excessivo que a coordenação da feira destinou ao Gabriel o Pensador, patrono do evento.

* O escritor Fabrício Carpinejar parece ter sido o pivô da polêmica, quando muito oportunamente cancelou sua participação através de uma carta onde critica os organizadores pelos 170 mil reais reservados ao rapper carioca.

O Preço da Ilusão

* Na carta que enviou à Coordenação da Feira do Livro de Bento Gonçalves, Fabrício Carpinejar diz que o artista não tem culpa por pedir tal valor, mas que a prefeitura tem inteira responsabilidade de acatá-lo e não informá-lo da real capacidade cultural do município.

* Tomo a liberdade de editar alguns fragmentos da carta: literatura não deve ser feita para atrair público, e sim para formar público. Feira do Livro não é Oktoberfest, uma plataforma popular de shows musicais e apresentações midiáticas.

* Feira é intensificar leituras em escolas e universidades para propiciar debates com escritores durante uma semana. Uma receita simples e imbatível: ler e comentar, ler e discutir, ler e produzir idéias coletivamente e transformar o pensamento.

* Trazer grandes nomes com dinheiro público a preços estratosféricos é sempre a forma mais rápida de projeção nacional. A literatura é o modo mais lento, entretanto, com efeitos definitivos e perenes. A ilusão custa mais caro do que o sonho.

Saco Cheio

* Depois do episódio, Gabriel o Pensador deu uma entrevista onde disse estar de saco cheio com o assunto. Reuniu-se com o prefeito de Bento Gonçalves e renunciou o cachê de 170 mil reais, mas cancelou o show e a distribuição de 2 mil livros.

* Quando pediram ao rapper pra discriminar este montante, justificou que o valor de cada livro é 35 reais. Dois mil exemplares custam, então, 70 mil reais. Mais 60 mil que é o cachê pelo show. Ainda faltam 40 mil pra fechar a conta.

* E vamos e convenhamos: 35 reais por livro é preço de livraria. Das mãos do autor, poderia ser tranquilamente a metade. Well, well, Gabriel...

sábado, 21 de abril de 2012

Avenue Q


* Demorou quase dez anos [a estreia foi em 2003] mas finalmente me rendi aos encantos da adorável vizinhança da Avenida Q, uma rua fictícia de Nova York que batiza um musical delicioso. Eu não botava muita fé por puro preconceito aos bonecos até que minha amiga Roberta Montagnoli me disse que eu precisava ver.

* Avenue Q é um musical inspirado na Vila Sésamo – quando eu era criança eu tinha um dicionário ilustrado com seus personagens – num roteiro que toca em pontos como preconceito, racismo, propósito de vida, o schadenfreude, que quer dizer o prazer sobre a desgraça alheia, a brevidade das coisas e a fina linha que separa as diferentes intenções. Tudo com uma trilha sonora sensacional.

Off Broadway

* Avenue Q estreou Off-Broadway e, devido ao grande sucesso, entrou em seguida no circuito da Broadway, onde permaneceu até 2009. Durante este tempo, foi montado também em Londres e em Las Vegas. Cinco semanas depois de sua última apresentação, voltou a um teatro Off-Broadway onde permanece em cartaz até hoje.


* Mas o que isso quer dizer? Durante anos eu me equivoquei sobre a diferença entre uma produção da Broadway e uma Off-Broadway. Principalmente porque o nome sugere que tenha a ver com a localização. Ledo engano.


* Como muito já sabem, a Broadway é uma avenida que cruza uma grande fatia do mapa de Manhattan. É, acima de tudo, um endereço. Mas a maioria dos teatros não estão nessa avenida, e sim nas tranversais, nas imediações da Times Square. O que diferencia um teatro da Broadway para um Off-Broadway é o número de pessoas que ele pode abrigar.


* Para ser Broadway, precisa haver pelo menos 500 lugares. Abaixo disso, é Off-Broadway. Isso também implica nos custos das produções e em uma série  de fatores que geram outras diferenças. Mas a principal é esta.

Confusões


* Essa confusão com os teatros da Broadway me fez lembrar de uma série de outras. Eu já confundi Maldivas com Malvinas. Já confundi Frank Lloyd Wright com Andrew Lloyd Weber. Já confundi Madame de Pompadour com Georges Pompidou.


* Confundi Kandinsky com Leminski, Luís Carlos Prestes com Luís Carlos Prates e Whoopi com Oprah. Também troquei várias vezes o nome da Reese Witherspoon com o da Drew Barrymore. E Mao Tse Tung com Lao Tse.


* Ainda confundo os meses com trinta e os meses com trinta e um. Confundo nomes de doenças e sempre esqueço como se chama aquela das múltiplas personalidades. Esquizofrenia, lembrei.


* Confundo health com wealth, campanário com minarete e nunca sei se berinjela é com G ou com J. Pequenas confusões que fazem a gente exercitar o bom hábito da pesquisa. Só não chamei urubu de “meu louro” porque sou avesso à qualquer bicho dado a bater asas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Newsies

* No início dos anos noventa, a Disney lançou um filme chamado Newsies, cujo ator principal era um adolescente galês pouco conhecido que atendia pela graça de Christian Bale. Naquele tempo, um personagem como o Batman e uma estatueta do Oscar eram sonhos distantes.

* Aqui no Brasil, o título foi traduzido como Extra! Extra!, já que o filme é baseado na história real da greve dos jornaleiros em Nova York no fim do século dezenove.

* Foi um fracasso de bilheterias. Aliás, o fiasco foi tão grande muita gente – eu inclusive – nunca tinha nem ouvido falar sobre esse filme. E o que acontece com um filme que vai mal diante do grande público? Vira cult.

* Newsies começou a ganhar um grupo de defensores e admiradores. O movimento cresceu e o filme acaba de ganhar sua versão para os palcos da Broadway – foi a melhor surpresa que tive nesta temporada em NY.

* Desde O Despertar da Primavera que eu não assitia a um musical com tanto punch. A pegada é forte e a plateia nao economiza nos aplausos. Arranjos lindos como só a Disney sabe fazer e coreografias irretocáveis do celebrado Kenny Ortega, coreógrafos de sucessos como Dirty Dancing, High School Musical e Material Girl, da Madonna.

* Soluções estratégicas de cenários e elementos de cena, muitos arrepios, algumas lágrimas e o desejo de sair do teatro com o programa, o poster, o CD, o DVD, a camiseta, o chaveiro e a caneca. Inesquecível!