sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Trinta Moedas


* Na qualidade de diretor do grupo de arte Alina Lamparina, apresento a arte que Claudia Bia acaba de tirar do forno para o musical que o grupo ensaia pra estrear quando julho chegar.

* É uma peça baseada no musical Godspell, que por sua vez foi baseado no livro do evangelho segundo São Mateus. A história é uma velha conhecida de todos, mas sob uma ótica bem mais humana e bem menos religiosa.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Fogo e Paixão


* Nas últimas semanas, acompanhei pelos portais de notícias o estado de saúde do Wando, patrimônio da música popular brasileira. Na verdade não li nada além das manchetes, mas me impressionei com a quantidade: todos os dias havia alguma notícia de melhora ou piora, a ponto de parecer que havia uma assessoria de imprensa cobrindo os dias de hospital.

* Ainda pensei com os meus borbotões: faz mais de vinte anos que o Wando não emplaca uma canção que rendesse tanta notícia como sua internação. Vou escrever sobre isso.

* Pois ontem, quando me sentei pra esboçar a coluna de hoje, uma janela se abre na minha cara – na minha tela – noticiando sua morte. De repente, na minha mente, começou a tocar Chora Coração. Eu era de novo uma criança assistindo, sem entender muito bem, a novela Roque Santeiro. Mas entendia aquela canção que dizia “passarinho na gaiola feito gente na prisão”.

* Wando foi tachado de brega e só era bem recebido a título de sacanagem. Só se cantava Wando em tom de deboche. Talvez seja tarde pra advogar a seu favor, mas enquanto músico posso garantir que suas harmonias são muito mais sofisticadas que qualquer sertanejo universitário.

* Seus versos eram simples, às vezes maliciosos. Lembram daquela que dizia que “se você quer me dar, eu quero receber”? Talvez não. Mas Fogo e Paixão, sua obra-prima, vai continuar a embalar romances por gerações, afinal de contas, os clássicos são eternos. Wando era fogo. A gente é paixão.

Histórias Cruzadas


* Nossa história de dominação dos brancos sobre os negros através de séculos abriu algumas feridas que podem jamais cicatrizar. Mas assistir a um filme como Histórias Cruzadas e se envergonhar, achar um absurdo que isso realmente tenha acontecido, pode ser um jeito de saber que as pessoas evoluíram – e um motivo pra não perder a fé na humanidade.

* Candidato à estatueta dourada de melhor filme, todo o ritual aconteceu como um filme “de Oscar” merece: cinema, pipoca, Coca-Cola e até companhia – minha prima Gio que no fim do filme disputou comigo a final do concurso do lenço molhado.

* É uma história sobre racismo que se passa no Mississipi durante o início dos anos sessenta, retratando a relação entre patroas e suas empregadas domésticas, num filme repleto de grandes momentos e atuações brilhantes – três delas estão na corrida para o Oscar, inclusive Viola Davis, que me deixou com a voz embargada.

* A crítica cri-cri tem sido um pouco cruel com o filme, mas tenho certeza que a turma do coração de manteiga vai gostar demais, e eu não ficaria nem um pouco indignado se, numa zebra, faturasse a estatueta dourada de melhor filme.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Everybody Hurts

* O produtor teatral britânico David King encomendou um estudo pra descobrir qual a canção mais poderosa quando se trata de uma ferramenta emocional – ou seja, uma música que é melhor você ouvir sem facas ou cordas por perto.

* A grande vencedora foi Everybody Hurts, do R.E.M., que é realmente uma bela canção, triste como as belas canções sabem ser. Em segundo lugar, Candle in the Wind, que Elton John compôs para o funeral da princesa Diana.

* Também aparecem na lista as surradas I Will Always Love You, sucesso de Whitney Houston no filme O Guarda Costas, e My Heart Will Go On, na voz de Celine Dion com o Titanic submergindo no fundo da tela.

Millennium


* O escritor sueco Stieg Larsson era jornalista e havia fundado a revista Expo, com sede em Estocolmo. Certo dia, no doce novembro de 2004, chegou à sede da revista e se deparou com o elevador em manutenção. Arriscou sete lances de escada pra chegar até o seu escritório e, em seguida, teve um ataque cardíaco. Morreu ali, aos cinquenta anos.

* Não viveu a tempo de ver sua trilogia Millennium ser traduzida e vendida em livrarias do mundo inteiro. Nem de saber que seus livros seriam transformados em filme. Isso tudo aconteceu há dois anos, quando já fazia cinco do evento da escadaria.

* Agora, seu nome volta a ser evocado por conta de uma nova filmagem de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, em cartaz nos cinemas da redondeza. Só fico um tanto surpreso com o espaço de tempo entre um filme e sua refilmagem. Dois anos é muito menos do que o hiato entre os filmes do Homem-Aranha, que eu já tinha achado perto demais.

Dragão Tatuado

* Eu não sei falar sueco. Só de tentar pronunciar, a língua já fica perplexa. E se é verdade que o húngaro é a única língua que o diabo respeita, o sueco deve ter ficado entre o respeitável e o incompreensível.

* Digo isso com pesar, porque gostaria de saber qual a tradução literal dos títulos da trilogia Millennium no original, porque as diferenças entre o inglês e o português são irritantes. No inglês, por exemplo, Os Homens que Não Amavam as Mulheres chama-se The Girl with the Dragon Tattoo [algo como A Garota com Tatuagem de Dragão].

* O pior disso é sair do cinema com a sensação de que o título não faz justiça à obra e que a culpa é toda do tradutor. Em Portugal, é ainda diferente: Os Homens que Odiavam as Mulheres.

* Os demais títulos da trilogia também não escaparam dos equívocos. O segundo volume ficou bem no Brasil. The Girl who Played with Fire virou A Garota que Brincava com Fogo. Pena os nossos ilustres lusitanos terem estragado tudo em seu país: A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo.

* Pra completar, The Girl who Kicked the Hornet’s Nest [que ficaria bem como A Garota que Chutou o Vespeiro] foi pessimamente traduzido como A Rainha do Castelo de Ar. Em Portugal é ainda pior: A Rainha do Palácio das Correntes de Ar.

* A título de esclarecimento, vale dizer que o livro A Menina que Roubava Livros não tem absolutamente nada a ver com essa trilogia, como já ouvi gente desinformada conversando por aí.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres

* Suspense do meu número, eu que gosto de ficar preso à poltrona do cinema, mas que não suporto o susto pelo susto. Cinema não é trem-fantasma. Os Homens que Não Amavam as Mulheres tem isso a seu favor: não precisa apelar para o susto pra manter o suspense. Filme de gente grande.

* Pra quem não viu e não leu, trata-se da história de um jornalista investigativo [Daniel Craig] que acaba de ser condenado por algo que escreveu e não conseguiu provar. Então, pra mudar os ventos da sua carreira, aceita o convite de um grande empresário pra escrever sua biografia e tentar desvendar um crime que aconteceu em sua família no passado e que ficou sem solução.

* De repente, precisa contratar uma assistente. É aí que entra em sua vida a hacker Lisbeth Salander, a personagem encarnada pela atriz Rooney Mara numa atuação brilhante que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz – e é ela a verdadeira protagonista do filme, é ela a garota com a tatuagem de dragão e é ela que arrebenta em cenas dificílimas.

* A direção de arte é moderna, bem no estilo do diretor David Fincher – um velho conhecido por filmes como Seven, Clube da Luta, Benjamin Button e A Rede Social. Se você vai ao cinema pra se distrair, troque de filme. Mas se estiver a fim de encarar um thriller dos bons, está recomendado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os Descendentes


* Indicado ao Oscar em cinco categorias [melhor filme, diretor, roteiro adaptado, edição e melhor ator], Os Descendentes é um drama familiar com alguns equívocos e grandes acertos, principalmente nas cenas em que a emoção fala mais alto que o próprio texto.

* Não é uma história de família feliz, mas uma história de família comum. Um pai, uma mãe e duas filhas adolescentes. De repente, a mãe sofre um acidente de barco e fica em coma. Quando descobrem que o estado dela não tem mais volta, precisam aparar algumas arestas pra poder lidar com a situação.

* Uma cena de rara beleza é aquela logo após o pai procurar a filha mais velha na piscina de casa pra contar a ela que a mãe não vai mais sair do coma. É um momento inspirado do diretor e uma grande atuação da menina [Shailene Woodley], que submerge e cai num pranto desolador, com a câmera acompanhando a ação debaixo d´água.

* Nesse clima terminal, algumas verdades duras vêm à tona e uma embolada de sentimentos se instala sobre os familiares e, por conseqüência, sobre o espectador que se deixa embalar pela história.

* Não é um filme grandioso que justifique prêmios e estatuetas, mas ainda assim é um bom filme que merece, sim, ser visto.

George, Brad mais Três Homens e Um Segredo


* George Clooney tem sido figurinha repetida nas premiações do Oscar na última década. Com um detalhe: seus filmes – tanto na função de ator como na de diretor – aparecem ano sim, ano não.

* Vamos refrescar a memória: no Oscar de 2006, Clooney veio com a força toda, concorrendo às principais categorias com o seu Boa Noite e Boa Sorte. Acabou saindo da festa com a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, mas por outro filme – Syriana, sobre a indústria do petróleo. No ano seguinte, nenhuma menção ao seu nome.

* Em 2008, volta concorrendo ao prêmio de Melhor Ator por Conduta de Risco. Ano seguinte, folga. Depois, em 2010, é novamente indicado como Melhor Ator no filme Amor Sem Escalas. Ano seguinte, férias.

* Agora, em 2012, Mr. Clooney contra-ataca. Seu filme Tudo Pelo Poder não teve uma performance admirável na lista de candidatos, concorrendo apenas na categoria de Roteiro Adaptado, mas Os Descendentes está indicado nas principais categorias, inclusive na de Melhor Ator, concorrendo com Brad Pitt e mais três homens – e um segredo, que será desvendado na cerimônia do Oscar, marcada pra 26 de fevereiro.