segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Millennium


* O escritor sueco Stieg Larsson era jornalista e havia fundado a revista Expo, com sede em Estocolmo. Certo dia, no doce novembro de 2004, chegou à sede da revista e se deparou com o elevador em manutenção. Arriscou sete lances de escada pra chegar até o seu escritório e, em seguida, teve um ataque cardíaco. Morreu ali, aos cinquenta anos.

* Não viveu a tempo de ver sua trilogia Millennium ser traduzida e vendida em livrarias do mundo inteiro. Nem de saber que seus livros seriam transformados em filme. Isso tudo aconteceu há dois anos, quando já fazia cinco do evento da escadaria.

* Agora, seu nome volta a ser evocado por conta de uma nova filmagem de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, em cartaz nos cinemas da redondeza. Só fico um tanto surpreso com o espaço de tempo entre um filme e sua refilmagem. Dois anos é muito menos do que o hiato entre os filmes do Homem-Aranha, que eu já tinha achado perto demais.

Dragão Tatuado

* Eu não sei falar sueco. Só de tentar pronunciar, a língua já fica perplexa. E se é verdade que o húngaro é a única língua que o diabo respeita, o sueco deve ter ficado entre o respeitável e o incompreensível.

* Digo isso com pesar, porque gostaria de saber qual a tradução literal dos títulos da trilogia Millennium no original, porque as diferenças entre o inglês e o português são irritantes. No inglês, por exemplo, Os Homens que Não Amavam as Mulheres chama-se The Girl with the Dragon Tattoo [algo como A Garota com Tatuagem de Dragão].

* O pior disso é sair do cinema com a sensação de que o título não faz justiça à obra e que a culpa é toda do tradutor. Em Portugal, é ainda diferente: Os Homens que Odiavam as Mulheres.

* Os demais títulos da trilogia também não escaparam dos equívocos. O segundo volume ficou bem no Brasil. The Girl who Played with Fire virou A Garota que Brincava com Fogo. Pena os nossos ilustres lusitanos terem estragado tudo em seu país: A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo.

* Pra completar, The Girl who Kicked the Hornet’s Nest [que ficaria bem como A Garota que Chutou o Vespeiro] foi pessimamente traduzido como A Rainha do Castelo de Ar. Em Portugal é ainda pior: A Rainha do Palácio das Correntes de Ar.

* A título de esclarecimento, vale dizer que o livro A Menina que Roubava Livros não tem absolutamente nada a ver com essa trilogia, como já ouvi gente desinformada conversando por aí.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres

* Suspense do meu número, eu que gosto de ficar preso à poltrona do cinema, mas que não suporto o susto pelo susto. Cinema não é trem-fantasma. Os Homens que Não Amavam as Mulheres tem isso a seu favor: não precisa apelar para o susto pra manter o suspense. Filme de gente grande.

* Pra quem não viu e não leu, trata-se da história de um jornalista investigativo [Daniel Craig] que acaba de ser condenado por algo que escreveu e não conseguiu provar. Então, pra mudar os ventos da sua carreira, aceita o convite de um grande empresário pra escrever sua biografia e tentar desvendar um crime que aconteceu em sua família no passado e que ficou sem solução.

* De repente, precisa contratar uma assistente. É aí que entra em sua vida a hacker Lisbeth Salander, a personagem encarnada pela atriz Rooney Mara numa atuação brilhante que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz – e é ela a verdadeira protagonista do filme, é ela a garota com a tatuagem de dragão e é ela que arrebenta em cenas dificílimas.

* A direção de arte é moderna, bem no estilo do diretor David Fincher – um velho conhecido por filmes como Seven, Clube da Luta, Benjamin Button e A Rede Social. Se você vai ao cinema pra se distrair, troque de filme. Mas se estiver a fim de encarar um thriller dos bons, está recomendado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os Descendentes


* Indicado ao Oscar em cinco categorias [melhor filme, diretor, roteiro adaptado, edição e melhor ator], Os Descendentes é um drama familiar com alguns equívocos e grandes acertos, principalmente nas cenas em que a emoção fala mais alto que o próprio texto.

* Não é uma história de família feliz, mas uma história de família comum. Um pai, uma mãe e duas filhas adolescentes. De repente, a mãe sofre um acidente de barco e fica em coma. Quando descobrem que o estado dela não tem mais volta, precisam aparar algumas arestas pra poder lidar com a situação.

* Uma cena de rara beleza é aquela logo após o pai procurar a filha mais velha na piscina de casa pra contar a ela que a mãe não vai mais sair do coma. É um momento inspirado do diretor e uma grande atuação da menina [Shailene Woodley], que submerge e cai num pranto desolador, com a câmera acompanhando a ação debaixo d´água.

* Nesse clima terminal, algumas verdades duras vêm à tona e uma embolada de sentimentos se instala sobre os familiares e, por conseqüência, sobre o espectador que se deixa embalar pela história.

* Não é um filme grandioso que justifique prêmios e estatuetas, mas ainda assim é um bom filme que merece, sim, ser visto.

George, Brad mais Três Homens e Um Segredo


* George Clooney tem sido figurinha repetida nas premiações do Oscar na última década. Com um detalhe: seus filmes – tanto na função de ator como na de diretor – aparecem ano sim, ano não.

* Vamos refrescar a memória: no Oscar de 2006, Clooney veio com a força toda, concorrendo às principais categorias com o seu Boa Noite e Boa Sorte. Acabou saindo da festa com a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, mas por outro filme – Syriana, sobre a indústria do petróleo. No ano seguinte, nenhuma menção ao seu nome.

* Em 2008, volta concorrendo ao prêmio de Melhor Ator por Conduta de Risco. Ano seguinte, folga. Depois, em 2010, é novamente indicado como Melhor Ator no filme Amor Sem Escalas. Ano seguinte, férias.

* Agora, em 2012, Mr. Clooney contra-ataca. Seu filme Tudo Pelo Poder não teve uma performance admirável na lista de candidatos, concorrendo apenas na categoria de Roteiro Adaptado, mas Os Descendentes está indicado nas principais categorias, inclusive na de Melhor Ator, concorrendo com Brad Pitt e mais três homens – e um segredo, que será desvendado na cerimônia do Oscar, marcada pra 26 de fevereiro.

Sonho Romântico


* O comentário do Jabor sobre a passagem da presidente Dilma pelo país de Fidel Castro foi feliz no telejornal anteontem. Ele disse que a presidente Dilma fez o que pôde. Não dava pra fazer uma intrusão direta na política interna de Cuba, não só pela força simbólica do país, que foi certamente um sonho romântico de Dilma, mas também porque há muitos fatos e interesses de Estado com a ilha.

* Mas eu creio que Dilma acertou duas vezes nessa delicada situação. Primeiro concedeu o visto brasileiro para a moça. Ótimo! Se os comunas velhos não deixarem a [blogueira] Yoani sair, ruim pra elas e pior pra eles.

* Outra coisa elogiável e sincera foi Dilma assumir o nosso precário telhado de vidro no Brasil, em que os direitos humanos são massacrados também, não por um partido apenas como em Cuba, mas por inúmeras causas que geram a barbárie geral do país. Basta ver nosso sistema prisional ou o escravismo no nordeste e Brasil central.

* Dilma apontou também para algo bem contemporâneo. Os blocos ideológicos são hoje confusos e arcaicos. Por isso os direitos humanos devem estar acima de partidos ou ideologias. Na confusão do mundo atual temos de buscar direitos universais. A humanidade voltou a importar.

* No entanto, uma frase de Dilma pode ser aperfeiçoada. Ela disse: “não podemos fazer dos direitos humanos uma arma de combate político e ideológico”. Correto. Mas o contrário também é verdadeiro. Vice-versa. A defesa de ideologias e regimes não pode ser um pretexto ou uma justificativa pra se ignorar e ferir direitos humanos fundamentais.

Água para Elefantes


O fotógrafo “catarina” Humberto Furtado colocou a mochila nas costas, a máquina fotográfica no pescoço e foi se aventurar em uma longa viagem pela Ásia e pela África. A foto que ilustra a coluna de hoje é um registro de sua estadia em Surin – Elephants Village – na Tailândia, onde está fazendo um trabalho voluntário nesta fazenda de elefantes, onde adotou um dos quase 200 animais que compõem essa reserva. Seu nome é Pen Ten [Lua Cheia] e ele é responsável por cortar a cana, alimentar, levar ao rio e dar banho.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Xanadu


* Os grandes musicais ganharam solo fértil aqui no Brasil nos últimos doze anos. É lindo acompanhar o nível de produção e capricho pra conquistar o espectador com o gênero. Só que o público espera sempre mais.

* Não basta cantar, dançar, interpretar e sapatear. Tem que voar. E na era do 3D, não basta voar. Tem que voar por cima da plateia. Primeiro foi Mary Poppins que fez o vôo inaugural. Depois dela, o Homem Aranha e as Bruxas de Eastwick já voaram sobre os espectadores.

* Anteontem, no teatro Oi Casagrande, no Rio, os atores Danielle Winits e Thiago Fragoso sofreram um acidente durante apresentação do musical Xanadu. Os dois estavam pendurados sobre a plateia por um cabo de aço quando caíram, ferindo dois espectadores.

Los Hermanos


* O cenário do primeiro encontro foi a PUC do Rio nos anos noventa. Ali a gente pode dizer que nasceram Los Hermanos, uma banda com uma trajetória de sucesso bastante particular.

* Se você pedir a um cidadão comum que cante uma canção do grupo, é bem provável que ele não saiba nenhuma. Se você induzir, talvez ele consiga lembrar do refrão de Anna Julia, que estourou nas FMs e caiu no gosto dos ouvintes – e isso inclui George Harrison, que gravou a música.

* Mas não é pra escrever do cidadão comum que eu empunhei a pena, e sim daquele grupo pequeno que foi sendo seduzido pelas outras músicas da banda, desconhecidas das rádios. Um grupo pequeno que foi se multiplicando até lotar teatros onde todos cantavam em uníssono aquelas canções.

* Eu sou um deles e participei dessa cena. Em 2005, quando o quarto e último álbum chegou nas prateleiras, eu assisti aos barbudos no teatro do CIC, em Floripa. Foi um show pra pendurar na parede da memória.

* A plateia inteira cantando junto todas as letras, e minha amiga Karine Appel – que eu carreguei comigo – ficou sem entender direito aquele febre, já que nada daquilo era popular e, no entanto, todos ali sabiam de cor.

Turnê

* Um pouco depois disso, eles resolveram se separar. Os motivos nunca vieram à superfície, mas a História – com H maiúsculo mesmo – está repleta de demonstrações de que só cabe um galo em cada galinheiro e dividir a liderança entre Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante pareceu não funcionar.

* Resultado: os fãs ficaram órfãos. Marcelo lançou álbuns solo, Rodrigo também seguiu seu caminho até que um belo dia deu saudade e aceitaram voltar a se apresentar juntos. Foi uma loucura. Os ingressos não chegavam a esfriar nas bilheterias.

* Ano passado, divulgaram uma turnê para este ano comemorando os quinze anos, desde aquele primeiro encontro na PUC do Rio. Vão percorrer algumas capitais do Brasil em shows concorridíssimos, cujos ingressos se esgotaram tão logo quanto foram anunciados.

Re-Trato

* Você pode até torcer o nariz para as fusões de rock e MPB dos Los Hermanos, mas não dá mais pra ignorar a importância musical que eles conquistaram. Prova disso é a homenagem que vão receber, idealizada pelo blog Musicoteca.

* Trata-se da coletânea Re-Trato que trará mais de 30 artistas da cena indie reinterpretando a obra do quarteto. O resultado será um tributo em CD duplo – cada um com 12 faixas, mais 3 faixas-bônus e uma ilustração para cada música feitas pela artista plástica Luyse Costa.

* Entre os convocados para a homenagem, os curitibanos d’A Banda Mais Bonita da Cidade que fizeram uma bela releitura de Dois Barcos. Rodrigo Del Arc também fez um belo trabalho com O Vencedor. Tudo já no Youtube, óbvio.